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segunda-feira, 9 de maio de 2011

O que o cheiro tem a ver com o comportamento sexual?



Por Roberta de Medeiros

Sempre tem um cheirinho que faz a gente se lembrar de uma pessoa querida. Já percebeu? É normal, considerando que as emoções estão intimamente ligadas ao olfato. Estudos recentes vão mais longe, até defendem que existe um certo odor exalado pelo organismo que nos torna sexualmente atraídos pelo sexo oposto. E sequer pensamos direito na hora "h", porque a reação é automática. 

O artifício não é privilégio dos humanos - está presente em vertebrados em geral, e funciona como isca para fisgar possíveis parceiros sexuais. Quem diria, tudo indica que romance começa pelo faro! Se preferir, pense que temos um "sexto sentido". Isto, graças aos feromônios, sinais químicos produzidos pelo corpo e que podem ser detectados por um pequeníssimo órgão que fica no nariz e é responsável pela recepção desses sinais, trata-se do órgão vômero-nasal. 

Ele é uma estrutura importante no processamento de informações olfativas que não se tornam conscientes e que desencadeiam impulsos que levam ao sexo (sistema acessório). Lembre-se que um cão, por exemplo, tem o hábito de marcar seu próprio território! Paralelamente, há o epitélio olfatório. Ele que permite que sinais químicos sejam percebidos como um cheiro - e de modo consciente (sistema principal). 

Alguns estudos atestam que homens não têm o órgão vômero-nasal. Na melhor das hipóteses, as pesquisas mostram que a ele simplesmente não funciona. Isto é, por causa da evolução biológica, o órgão se tornou inativo em certos primatas. Se isso é mesmo verdade, por que ainda somos sensíveis ao feromônio? Tudo leva a crer que informação feromonal tomou uma outra rota para atuar no sistema nervoso. 

Em entrevista à Revista Fato, o neuroanatomista Judney Cley Cavalcante, doutorando em Ciências Morfofuncionais, pelo Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, explicou como, afinal, o feromônio interfere na libido. Desde 2001, o pesquisador se dedica ao estudo das respostas neuroquímicas produzidas no cérebro de ratos em reação ao feromônio. O resultado das suas experiências será publicado pela "Physiology & Behavior", revista oficial da International Behavioral Neuroscience Society. 

Revista Fato- Por que os seres humanos ainda são sensíveis ao feromônio? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- O fato dos seres humanos não terem o órgão vômero-nasal funcional e mesmo assim apresentarem alterações fisiológicas e comportamentais diante de feromônio sugere uma transferência de função do órgão vômero-nasal para o epitélio olfatório, ou seja, provavelmente o epitélio olfatório, além de transmitir informações relacionadas ao sentido do cheiro, ele também deve ser responsável pela transmissão da informação feromonal para a parte central do sistema nervoso, só não se sabe ainda de que forma, nem quais vias são utilizadas. 

REVISTA FATO- No caso dos homossexuais, como o feromônio é percebido? Dá para entender a preferência sexual por esse prisma? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Um estudo mostrou a irrigação [o fluxo sanguíneo] do cérebro de heterossexuais e homossexuais em resposta ao feromônio. A substância foi colocada debaixo do nariz deles, enquanto os exames de neuroimagem registravam quais as áreas do cérebro estavam mais ativas. Os heterossexuais que tiveram contato com o feromônio do sexo oposto apresentaram maior atividade nas áreas do cérebro ligadas ao prazer e ao bem-estar [a amígdala e o hipotálamo]. Quando eles foram expostos ao feromônio do mesmo sexo, o sinal químico foi interpretado como um cheiro. Mas a reação dos homossexuais foi oposta, eles tiveram uma resposta mais ligada ao prazer ao cheirar o feromônio do mesmo sexo. 

REVISTA FATO- Então a preferência sexual tinha a ver com uma resposta ao feromônio...Você concorda como essa maneira de entender o homossexualismo? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Eu acredito que o desenvolvimento da identidade sexual tem uma base neuronal muito forte sim, e até com uma modificação importante no sistema endócrino. Muita gente fica chateada porque acha que a ciência quer encontrar algo que justifique a atração entre pessoas do mesmo sexo, mas eu acho bem interessantes os estudos que tentam encontrar uma base biológica para a homossexualidade, não é uma questão de preconceito. 

REVISTA FATO- Além de despertar o impulso sexual, quais outros comportamentos produzidos pela exposição ao feromônio? O que há de novo neste sentido? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Algumas pesquisas investigam o papel do feromônio no comportamento agressivo e defensivo dos animais, mas ainda há pouca coisa sobre isso. Tudo o que se tem é em relação ao comportamento sexual e maternal. Os estudos mostram, por exemplo, que a percepção do feromônio ajuda a fêmea a reconhecer os filhotes. Quando o órgão vômero-nasal é lesado, a mãe aceita qualquer filhote, quando o normal seria rejeitar aquele filhote que não é seu. Isso foi testado em ratos e ovelhas. Neste caso, o papel do órgão vômero-nasal é o de inibir o comportamento maternal. Sabemos que em comparação a outros animais os seres humanos têm uma olfação bastante ruim, mas as mulheres também são capazes de identificar os filhos pelo cheiro. 

REVISTA FATO- Extratos de feromônio podem ajudar no tratamento de disfunções sexuais ou ser usado como afrodisíaco natural? Isso dá certo? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Já existem substâncias produzidas em laboratório. Em relação àqueles perfumes com feromônio, eu não sei se é enganação ou não, porque tudo o que tem sido descoberto nessa área é muito recente. O fato de ser publicado um artigo em uma revista científica, mesmo que seja uma revista séria, isso não significa que tudo seja verdade, que aquilo é inquestionável. É complicado. Antes de uma substância chegar ao mercado, ela tem de passar por uma série de procedimentos de controle. Eu acho que futuramente a substância pode ser fabricada em escala industrial, mas antes disso é preciso que haja um embasamento científico. 

REVISTA FATO- A produção do feromônio pode variar. E a sensibilidade? Ela também muda de um indivíduo para o outro? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Tão importante quanto a produção do feromônio é a sensibilidade que se tem a ele. Há uma série de circunstâncias que interferem na interpretação dos sinais químicos. As mulheres, por exemplo, elas respondem de maneiras diferentes ao odor masculino, dependendo da fase do ciclo menstrual. No período fértil, a maioria pode achar o odor agradável, em outro momento do ciclo o mesmo cheiro pode ser considerado desagradável. A sensibilidade varia de pessoa para pessoa, depende da intensidade do cheiro, etc. 

REVISTA FATO- Isso quer dizer que outros elementos podem influenciar a maneira com que a mulher vai perceber o odor? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Um trabalho mostrou que as mulheres expostas ao feromônio, elas tendiam a achar mais atraentes os rostos dos homens com traços bem masculinizados, com maxilar mais evidente, queixo grande, etc. Ou seja, existe uma série de questões envolvidas, como os próprios elementos da atratividade visual. É complicado saber o peso de cada um deles. E nem dá para controlar tantas variáveis em experiências com seres humanos. Como selecionar voluntários mais ou menos atraentes, por exemplo? É difícil chegar a uma resposta, porque isso é subjetivo e envolve uma questão cultural. Há uma série de dificuldades em se fazer experiências com humanos... 

REVISTA FATO- Um cheiro qualquer pode trazer à tona lembranças e sensações... No caso, o mecanismo responsável é diferente? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- O feromônio tem um papel chave em relação ao humor, ao sistema endócrino e também é sensível aos estados inconscientes. No caso das lembranças que afloram com o cheiro, é uma outra estrutura do cérebro, o núcleo acumbens, que recebe as informações do sentido do olfato; esta parte do cérebro está ligada ao reforço, à memória e ao sistema de recompensa. Então, se uma experiência agradável foi relacionada a um odor, ele vai estar extremamente ligado àquela memória. E se uma pessoa é novamente colocada em contato com o cheiro, as reações se repetem de forma muito parecida com a circunstância que a originou. Isso também acontece com animais, e pode ser repetido em laboratório. 

REVISTA FATO- O seu estudo em laboratório diz respeito ao comportamento sexual, especificamente? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- O que fazemos é estudar o que acontece com os neurônios de ratos a partir das reações com os feromônios e saber quais são as conexões mais usadas nestas reações. O estudo se concentra em uma área muito específica do hipotálamo, o núcleo pré-mamilar ventral. Ele também é importante na modulação do comportamento agressivo, mas não se sabe de que maneira isso acontece, se aumenta ou não a agressividade. Essa região do cérebro dos ratos têm receptores de leptina, um hormônio que tem o papel de regular a reserva energética [a quantidade de energia disponível para o desempenho das funções normais do organismo]. Os estudos mostraram que a leptina, além de promover alterações do comportamento alimentar, também está ligada às funções sexuais e à fertilidade, e provavelmente o núcleo pré-mamilar ventral seja uma região chave para a relação leptina-comportamento sexual. 

Entrevista  publicada na revista Fato

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ouvindo vozes


Você já teve a nítida impressão de ouvir uma voz sem que houvesse qualquer pessoa à sua volta? Em uma pesquisa feita pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, um grande número de entrevistados respondeu afirmativamente. Uma em cada 25 pessoas ouve vozes com uma certa freqüência.

A história está repleta de nomes famosos que ouviam vozes: Jesus, Sócrates, Galileu, Joana D´Arc, Pitágoras, William Blake, Carl Jung e Ghandi.

A experiência de ouvir vozes ou de ver “coisas” ocorreriam quando atribuímos equivocadamente pensamentos e imagens que são gerados por nossa própria mente a uma fonte externa. E, dependendo da freqüência e capacidade que a pessoa tem de lidar com a situação, essa vivência pode ser tomada como indício de instabilidade mental.  

Entretanto, o estudo sugere que ouvir vozes ou ser repentinamente assaltado por pensamentos que parecem não ter vindo de nossa “cabeça” é algo mais comum do que se poderia supor. "Muitas pessoas ouvem vozes, mas nunca sentiram a necessidade de pedir ajuda aos serviços de saúde mental", diz a pesquisadora Aylish Campbell, responsável pela pesquisa.

No século 19, foi feito o primeiro estudo que investiga a presença de alucinações em pessoas normais. 1684 pessoas de um grupo de 15 mil entrevistados relataram ter a vívida impressão de ver ou ser tocada por um ser vivo ou objeto inanimado, ou de ouvir uma voz, sem que essa sensação pudesse ser atribuída a alguma causa física externa.

Outros estudos chegaram a resultados parecidos. Em uma sondagem realizada na década de 80 pelos psicólogos americanos Mary Losch e T.B. Posey, que entrevistaram 375 estudantes. O resultado é que 39% deles disseram ouvir vozes. 

Para Campbell, o fato de ouvir vozes não é necessariamente um problema. “O que parece ser mais importante é como as pessoas interpretam estas vozes", diz. Ela observa que enquanto algumas pessoas se vêem perturbadas por vozes hostis, que criticam e perseguem, outras podem considerar a experiência como algo positivo.

Pessoas que sofreram algum trauma estariam mais predispostas a ouvir vozes. "Nosso trabalho de pesquisa mostrou que mais de 70% das pessoas que ouvem vozes podem ter tido um evento traumático que desencadeou as vozes", salienta o psiquiatra holandês Marius Romme, presidente de uma entidade britânica que ajuda pessoas que ouvem vozes.

Ao lado de Sandra Escher, jornalista de ciência, Romme levou a cabo um estudo desafiador que tratou de mostrar como são vistos os povos que ouvem vozes. Ao estudar comunidades que viam esse tipo de experiência como positiva, eles desenvolveram técnicas específicas para auxiliar pessoas que não sabem lidar com o problema.

Romme e Escher chegaram a publicar um guia voltado para especialistas que ensina a conviver e negociar como as vozes. Segundo a dupla, elas costumam ter uma mensagem metafórica. Analisando o que elas têm a dizer, profissionais da saúde mental podem ajudar seus pacientes a digerir melhor dolorosos traumas do passado.

O problema costuma surgir logo na infância. Um outro estudo feito por Romme mostrou que 21% das crianças ouviram vozes depois ter passado por abuso físico ou sexual; 37% após problemas na família, como o divórcio; e 25% por causa de mudança de escola e “bullying”.

“As vozes atrapalhavam as atividades escolares, oferecendo respostas erradas durante as provas,” diz Escher. “Algumas teciam comentários sobre amigos, enquanto outras faziam tanto barulho que impediam que as crianças se concentrassem”, conta. As vozes também diziam que os familiares seriam prejudicados se elas não as obedecessem.

Fonte: BBC Brasil 

sábado, 30 de abril de 2011

Codependencia: a escravidão mútua

Por Roberta de Medeiros

É comum que o familiar de um alcoólatra ou de doente, por exemplo, dedique-se integralmente a essa pessoa, a ponto de se sentir totalmente responsável por ela. Essa atenção exagerada costuma ser bem vista por todos, já que a tomamos como atitude zelosa para com o outro, uma demonstração de afeto. No entanto, essa rotina de cuidados pode mascarar uma perigosa relação de codependência em que as pessoas envolvidas se deixam escravizar mutuamente.

Isso faz com que elas se distanciem da sua verdadeira identidade, tomando de empréstimo as expectativas, desejos e necessidades da outra pessoa. De alguma maneira, essa relação de dependência funciona como uma estratégia de defesa a qual costumamos recorrer para sobreviver em tempos de crise, é uma forma de crescer em ambientes dolorosos.  Sentimos como se a vida só fosse possível quando nos agarramos fortemente a alguém, quando vivemos em função desse outro.

Desde cedo, as crianças percebem que os sentimentos positivos que lhes é dirigido dependem muito do estado de humor dos pais e, assim, crescem inseguras. Assim, elas aprendem a se basear nos desejos alheios ao invés de investir em suas expectativas. E não raro a dependência mútua é passada de geração em geração. O filho de um pai alcoólatra, por exemplo, poderá manter a mesma relação de dependência, seja por álcool, compras ou trabalho quando adulto.   

Diante do sentimento de inadequação, essas pessoas então buscam a perfeição em cada gesto, cobrando demais de si mesmas, talvez por acreditar o que isso lhes trará aceitação.  Outras se julgam obrigadas a desempenhar o papel de salvadoras, sua auto-estima passa a depender da sua capacidade de ajudar as outras, especialmente as que se as pessoas que se colocam no papel de vítimas; isto por não se julgarem boas o bastante para que sejam aceitas de outro modo. Existem também os revanchistas que tentam compensar as humilhações a partir de grande feitos, ansiosos para reafirmar sua importância. 

Todos os casos mencionados são formas variadas de manifestação de um mesmo problema, a dependência excessiva da aceitação do outro, a necessidade de aprovação. Segundo Roberto Ziemer, mestre em psicologia social pela PUC-SP e autor do livro Do Medo à Confiança: como realizar seu projeto de vida (Editora Gente), o primeiro passo é desvencilhar do que ele chama de eu falso, aquele que tomamos de empréstimo a partir de relações destrutivas. Através da identificação, questionamento e transformação dos papéis falsos descobrimos que existe uma maneira mais espontânea e saudável de estar no mundo, ele diz.

Outro passo é resgatar nossos próprios sentimentos e nos conscientizarmos das nossas próprias necessidades. Identificar os limites entre a própria identidade e a da outra pessoa também pode ajudar. Ao nos libertarmos das crenças e regras destrutivas do passado, poderemos estabelecer nossas próprias regras. À proporção em que nos libertarmos da opressão auto-imposta seremos capazes de fazer contanto com a nossa criança interior, aquela representa os aspectos mais genuínos, espontâneos e criativos de nossa personalidade.

Enfim, “nosso bem-estar comum deve estar sempre em primeiro lugar”, como reza a tradição do Codependentes Anônimos, um programa de recuperação voltado para pessoas que sofrem de dependência afetiva. Além de ensinar seus associados a se ver livre dessa relação de escravidão, o site do grupo oferece algumas perguntas que ajudam a identificar se a pessoa mantém ou não comportamento típicos de codependência:

Você se sente responsável por outra pessoa?
Sente culpa quando outras pessoas têm problemas?
Costuma dizer "sim" quando quer dizer "não"?
Procura agradar aos outros ao invés de agradar a si mesmo?
Vive tentando provar aos outros que é bom o suficiente?
Buscar desesperadamente amor e aprovação?
Tolera abuso para não perder o amor de outras pessoas?
Sente-se aprisionado em um relacionamento?
Teme expressar suas emoções de maneira aberta?
Ignora os seus problemas ou finge que as circunstâncias não são ruins?
Costuma ajudar as pessoas a viverem?
Acredita que elas não sabem viver sem você?
Tenta controlar eventos, situações e pessoas através da culpa?
Procura manter-se ocupado para não entrar em contato com a realidade?
Sente que precisa fazer alguma coisa para sentir-se aceito e amado pelos outros?
Tem dificuldade de identificar o que sente?

Codependentes Anônimos: http://www.codabrasil.org.br

terça-feira, 26 de abril de 2011

Música também cura



Por Roberta de Medeiros

 
Os sons podem acalmar ou gerar pânico. Podem causar sonolência ou despertar paixões. Ou ainda nos deixar tensos ou enlevados. Enfim, são capazes de detonar uma cascata de reações que alteram o estado geral do organismo. É o caso do som perturbador de uma sirene, que nos põe em alerta, e faz com que o corpo libere adrenalina para se proteger de uma possível ameaça. 

A terapia através da música – a musicoterapia – se baseia justamente nesse princípio: os sons produzem efeitos biológicos que podem tratar doenças, sejam elas físicas ou mentais. O uso de instrumentos, cantos e ruídos são recursos que têm sido usados com deficientes físicos, estudantes com dificuldade de aprendizagem, fala ou audição e usuários de drogas.

Não é crendice. A ciência mapeou o caminho que o som faz em nosso organismo: primeiro os sons alcançam os ouvidos e a seguir são convertidos em impulsos. Então, eles viajam pelos nervos auditivos até o tálamo, parte do cérebro que funciona como uma estação central das emoções. Ao serem processados pelo cérebro, os impulsos reverberam por todo o corpo. 

O resultado: uma série de respostas orgânicas. É como se nosso corpo adotasse uma cadência diferente. Claro, essa súbita mudança acaba por alterar padrões internos (sono e vigília, respiração, batimentos cardíacos, circulação sanguínea e secreções das glândulas). O que a terapia faz, portanto, é ensinar o corpo a “orquestrar” melhor a sinfonia interna que cada um de nós carrega. 


-Afinando o instrumento
“Viver é afinar um instrumento, de dentro para fora, de fora para dentro”. O trecho da música nos faz pensar que nossas emoções também soam a partir de pulsações rítmicas. Cada pessoa tem sua melodia, sua harmonia. Quando uma emoção rouba a cena, porém, dá-se o desarranjo. No caso, a terapia funciona como aqueles aparelhinhos que os musicistas trazem consigo para afinar o instrumento sempre que necessário.

“Há momentos em que as palavras não podem ser ditas ou nem se consegue mais dizê-las, então as canções falam a respeito dos sentimentos e vivências para eles mesmos (pacientes). Isso ajuda a processar perdas e aflições reprimidas”, diz a musicoterapeuta Sofia Cristina Dreher, que há cinco anos trabalha no atendimento de pacientes com câncer.

Em sua tese de mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC do Paraná, a pesquisadora e terapeuta defende que as canções são instrumento eficaz para trazer à tona sentimentos e impressões que evitamos trazer à consciência, que ficam bloqueados, mas que interferem decisivamente em nosso estado de espírito – são os sentimentos reprimidos. 

A partir de uma experiência tocante, ela narra o caso de uma paciente com câncer de pulmão internada no hospital São Lucas. “A paciente disse que não estava encontrando lugar para chorar em sua casa, que apenas o conseguia fazer, à noite, em seu quarto”, conta. A terapeuta, então, cochichou com ela, que fariam daquele lugar e daquele momento, um local para chorar, porque o choro faz bem.

Atualmente, a especialista trabalha no Oncocentro e atende cerca de 50 pacientes por mês. A duração da terapia varia, muitos morrem, alguns recebem tratamento por cerca de seis meses e outros lutam ao longo de anos. “Em geral, a primeira necessidade do paciente é falar, cantar algo que os leve daquele lugar, daquela situação”, conta ao lembrar sua experiência com pacientes durante as sessões de quimioterapia.

Ela observa, porém, que os profissionais de saúde têm dificuldade em oferecer respaldo à dor emocional dos pacientes. “Esses profissionais não são preparados para lidar com a dor emocional, e sim, com a dor física. Por vezes, os pacientes sentem uma angústia muito grande por não serem compreendidos na sua dor, uma vez que ela não se divide em dor física e emocional”, diz.


Publicado na revista Fato 


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Falando da vida alheia: o que está por trás da fofoca



Por Roberta de Medeiros

Basta um colega iniciar sua narrativa de intrigas sobre namoro, trabalho e problemas alheios que logo atrai a atenção de uma platéia sempre interessada.  "A fofoca nasce, brota, cresce e voa contra tudo o que nasce, brota, cresce e voa", escreve o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa em seu livro “Tratado Geral sobre a Fofoca”. Nele, descreve como somos vítimas e ao mesmo tempo agentes da fofoca.

Segundo Gaiarsa, a fofoca um dos fatores que mais influencia e modela as instituições sociais. Seria uma forma de as pessoas buscarem posição social perante as outras, ou seja, está diretamente ligada à insatisfação com a própria vida. “É a forma mais eficaz de as pessoas se vigiarem para manter o status da perseguição de todos contra todos", diz o psiquiatra.

A fofoca é pré-histórica. Há quem afirme que ela tenha sido de grande utilidade para nossos ancestrais ao longo da evolução: quem comia os alimentos corretos, escolhia para parceiro sexual os melhores reprodutores e estavam informados sobre o que acontecia ao seu redor, levavam vantagem sobre aqueles que não davam importância a essas  informações.

O interesse pela vida alheia recai sobre os famosos. Uma pesquisa feita pela Ipsos-Marplan, empresa especializada em estudos de marketing e consumo, mostra que pelo menos 38% da população no Brasil tem interesse por gente famosa. Segundo a pesquisa, 12% têm o hábito de ler revistas de fofocas. São mulheres (74%) das classes AB (54%) e pessoas de 20 a 34 anos (39%) que mais buscam esse tipo de entretenimento.

-Terapia
Na Itália, um manual da fofoca escrito pelas psicólogas Elena Mora e Luisa Ciuni deixa claro que se ocupar com a vida alheia pode ser uma excelente terapia. "A fofoca é um antídoto contra a monotonia e a solidão", afirmam as autoras. "É um importante instrumento de integração social. Consolida a participação num determinado grupo, alivia as tensões, o estresse acumulado e permite descarregar a agressividade. É um jogo entre realidade e ficção, que ajuda a conhecer a si mesmo”, dizem. 

O manual traz um estudo feito na Itália segundo o qual as mulheres gastam em média cinco horas por dia fofocando. No livro, as autoras dão dicas sobre como fofocar melhor e apontam os melhores lugares para rir da vida alheia. O salão do cabeleireiro, a academia de ginástica, festas de aniversários, casamentos e corredores de hospitais são alguns dos ambientes onde as mulheres podem fofocar.

A fofoca é uma forma de agressão coletiva, só que disfarçada. Quando uma pessoa comenta maliciosamente a vida de alguém tende a excluir e reprovar um certo grupo. “E nisso as pessoas que na frente fazem salamaleque, por traz todo mundo sabe, cortam a “casaca”, o que tem conseqüências até econômicas para quem foi fofocado. Isso é outra derivação da agressão, a gente faz de conta que é bonzinho e machuca quanto pode por baixo, indiretamente”, diz Gaiarsa.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

A ciência explica como surgem grandes assassinos


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Por Roberta de Medeiros


A sociedade prepara o crime, o criminoso o comete. Até pouco tempo essa era basicamente essa a explicação para a conduta de grandes impostores e assassinos. Ou seja, o crime era visto como uma resposta de um certo grupo frente a um ambiente hostil, de violência, individualismo e competição. "É preciso matar para não morrer", era o pensamento atribuído ao criminoso.

Hoje, porém, a ciência tenta investigar a predisposição biológica para a criminalidade. Parece ser esse o caminho explorado por uma emergente teoria, a da genética da violência, defendida pelo professor Ricardo Flores, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em seu discurso feito no 51º Congresso Brasileiro de Genética, em Águas de Lindóia (SP).

Durante o congresso, ele afirmou que todos grandes assassinos teriam problemas no funcionamento do cérebro. Um ambiente de violência e perigo, por exemplo, faria com que uma das formas alternativas do gene ligado ao comportamento seja inibida. Isso seria o bastante para abalar o frágil equilíbrio entre as substâncias ligadas às emoções - os neurotransmissores.

Como se fossem mensageiras, essas substâncias levam informações de uma célula a outra no sistema nervoso. Graças à transmissão dessas informações pelas células nervosas até o cérebro, somos capazes de perceber estímulos, como um grito ou uma doce melodia, e interpretá-los como um sinal de perigo ou bem-estar, dor ou alegria, tensão ou relaxamento.

Uma das substâncias mais importantes é a serotonina, responsável pelo humor. O problema é que crianças que sofrem violência passam a produzir a substância numa escala bem maior. E as grandes descargas afetam a formação do cérebro, que é programado para que ela se torne fria e impiedosa em relação às pessoas.

Porém, crescer em um ambiente hostil, pura e simplesmente, não torna uma pessoa criminosa. O risco estaria na soma dos dois fatores, o ambiental e a predisposição genética. Quando somente um dos fatores aparece, porém, o comportamento transgressor dificilmente é registrado. Mas do contrário, a mistura seria decisiva.

Psicopatas

O comportamento criminoso estaria associado que os especialistas chamam de psicopatia (ou sociopatia). Em geral, o perfil de um psicopata é uma pessoa que sai à caça de novidades e que tem gosto pelo perigo. Não sente necessidade de fugir de situações de ameaça e tem pouca dependência da aprovação dos outros em relação à sua conduta. Ou seja, sua vontade é sua lei.

São pessoas manipuladoras, que têm dificuldade de sentir afeto e compaixão. São, portanto, incapazes de manter uma relação e de amar. Elas mentem, roubam, abusam, trapaceiam, negligenciam suas famílias e parentes, colocam em risco suas vidas e a de outras pessoas. Enfim, elas pensam que o outro não passa de um obstáculo a ser removido.

Estudos recentes mostram que esse tipo de comportamento estaria ligado à atividade diferenciada dos três principais neurotransmissores que atuam no cérebro - a dopamina, a serotonina e a noradrenalina. O balanceamento, para mais ou para menos, determinaria a personalidade de uma pessoa.

A psicologia moderna trabalha com três principais grupos de personalidades: o que busca novidades (extrovertidos), o que foge de ameaças (introvertidos) e o que tende ora para um lado e ora para o outro, de acordo com a recompensa obtida por sua conduta (considerado o mais comum).

O psicopata seria um extrovertido por natureza. O que corresponderia à alta atividade de dopamina (que leva à busca de novidade), baixa atividade de serotonina (relacionada à inibição e à fuga do perigo) e de noradrenalina (ligada à dependência de recompensa).
Publicado na revista Fato

domingo, 27 de março de 2011

Cadê meu celular?



Por Roberta de Medeiros

Há pessoas que não conseguem ficar sem o celular nem por um instante. Essas pessoas entram num estado de profunda ansiedade e angústia quando se veem sem o celular, quando ficam sem créditos ou com a bateria no fim. A necessidade de estar conectado ultrapassa todos os limites.
Essas pessoas não saem de casa sem o celular, mantém o telefone ligado 24 horas por dia e sentem ansiedade quando o esquecem em casa. Antes de dormir, programam o telefone com o número do médico, do psicólogo e dos hospitais registrados em ordem por uma numeração específica, para o caso de ser necessário.

Elas apenas precisariam apertar a tecla correspondente ao atendimento e logo encontrariam a providência desejada. Elas ainda se sentem rejeitadas quando ninguém lhes telefona ou quando percebem que os amigos recebem mais ligações do que eles. Quando ficam sem bateria ou fora da área de cobertura se sentem ansiosas, angustiadas e inseguras.

Para a psicóloga Sylvia van Enck, do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso, da USP, a nomofobia é um transtorno do controle dos impulsos com um forte componente de ansiedade generalizada. 

Alguém que apresenta algum transtorno no controle dos impulsos, tem dificuldade para resistir à tentação de executar um ato que possa vir a ser prejudicial para si ou para os outros e obtém alívio e diminuição da tensão emocional e física quando ação é executada.

“O transtorno de ansiedade faz parte da caracterização dos transtornos no controle dos impulsos e, neste caso, a pessoa é acometida por uma apreensão negativa em relação aos eventos futuros, provocando sensações de inquietação psíquica e sintomas físicos desagradáveis”, diz a psicóloga. 

Não é fácil se “desplugar” do celular, uma vez que. na sociedade tecnológica, o aparelho é sinônimo de status e inclusão social. “Podemos entender que o uso do aparelho celular mesmo que não excessivo, especialmente junto à população jovem esteja relacionado aos aspectos de inclusão social e conectividade entre os amigos. Por outro lado, com o avanço dos recursos tecnológicos do celular, adquirir um aparelho cada vez mais sofisticado pode conferir status econômico e social, o que pode estar relacionado à busca de reafirmação da identidade psicológica dos adolescentes nesta fase da vida”, analisa Sylvia.

O mercado oferece uma infinidade de aparelhos, e é difícil resistir à tentação de adquirir o mais novo modelo. Cada vez mais a população mais jovem, incluindo crianças, está cedendo às pressões do mercado com a ajuda dos pais.

Mas psicóloga alerta: “Há um risco no desenvolvimento da insegurança pessoal que pode ser também o reflexo da insegurança dos pais, que precisam estar sempre tendo notícias do paradeiro dos filhos. Outro aspecto a ser considerado é a diminuição na resistência à frustração diante da espera de um contato ou do silêncio do outro, gerando ansiedade, angústia... que se não controlados podem desencadear comportamentos agressivos, reflexos da intolerância gerada pela nomofobia”, diz Sylvia.

-Transtorno de ansiedade
Autora de uma tese de doutorado sobre o tema, a psicóloga Anna Lúcia Spear King, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, comparou pacientes com um transtorno de ansiedade conhecido como síndrome do pânico, com pessoas completamente saudáveis, para saber o que eles sentiam quando ficavam sem o aparelho celular.

Entre os pacientes com pânico, a maioria demonstrou ter também a dependência do celular. Mesmo entre os considerados saudáveis, 34% confessaram sentir ansiedade e 54 % disseram ter medo de passar mal na rua se ficarem longe o aparelho.

Anna Lúcia lembra que nomofóbicos são pessoas que apresentam um perfil ansioso, dependente, inseguro e com uma predisposição característica dos transtornos de ansiedade que podem ser, por exemplo:  transtorno de pânico, fobia social, fobia específica, transtorno de estresse pós-traumático; e costumam ficar dependentes da internet por medo que estabelecerem relacionamentos sociais ou afetivos pessoalmente.

Com o telefone celular em mãos, essas pessoas têm a sensação de estarem acompanhadas e se sentem mais independentes. Quando não existia o telefone celular, estes indivíduos não tinham a mesma liberdade de locomoção e autonomia que têm atualmente de posse do aparelho”, explica.

Muitas pessoas nomofóbicas, porém, não aceitam que são portadores desse tipo de fobia e atribuem a sua angustia a várias causas. Colocam a culpa no trabalho ou na necessidade de se comunicar com família ou com amigos, no caso de alguma emergência.
“É comum os dependentes alegarem que não podem ficar sem celular devido ao medo de precisarem do aparelho no caso de uma emergência, quando estão fora de casa, por exemplo. A pessoa se sente insegura sem o celular, é como se o aparelho conferisse uma falsa sensação de apoio, de controle”, comenta a psicóloga Juliana Bizeto, do PROAD (Programa de Orientação e Atendimento ao Dependente) da Unifesp.
 Segundo Juliana, a dependência gera um impacto severo na qualidade de vida.  “A pessoa não tem outras fontes de prazer, passa a se desinteressar por atividades sociais, afetivas e de lazer que anteriormente ele gostava. Ela tem uma relação exclusiva com o objeto de sua dependência e passa gastar cada vez mais, horas do seu dia, a determinada situação”.
 A psicóloga lembra que, no caso da dependência por celular ou internet, o problema pode ser camuflado já que a sociedade aceita o uso abusivo dessas tecnologias. “A nomofobia pode acometer pessoas bem adaptadas, que trabalham, estudam ou são casadas. Por isso, o problema não chama atenção, são poucos sinais visíveis que denunciam a dependência”, alerta.

“Os alvos mais freqüentes desse tipo de distúrbio são os adolescentes e os adultos com mais de 40 anos. O fator de risco para desenvolvimento da dependência é a ocorrência de um evento traumático, como uma separação, a mudança de emprego ou a morte de um ente familiar”, pontua.

O abuso funciona como a única válvula de escape da pessoa, que passa a ter uma vida empobrecida e um campo de atuação muito restrito.

Juliana lembra que os critérios de diagnóstico se apóiam na presença de três traços: exclusividade, tolerância e abstinência. Exclusividade, porque a tecnologia é única fonte de prazer; tolerância, porque a pessoa passa a gastar tempo cada vez maior com essa tecnologia; e abstinência, porque a pessoa apresenta sintomas desagradáveis quando está sem o aparelho, como irritabilidade, agitação e taquicardia.

“O dependente pode até reconhecer que sua relação com a tecnologia não é saudável. Ele consegue racionalizar e admitir que consegue controlar. Mas racionalizar é mais fácil do ter a plena consciência de que está adoecido, numa condição de sofrimento que exige cuidado”, diz o psicólogo Júlio D’Amato, da Universidade Federal Fluminense e professor da Unilasalle.

Segundo ele, o uso abusivo da conexão móvel pode ser só a ponta do iceberg. Muitas vezes camuflam outros distúrbios. Os mais freqüentes: transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), fobia social, transtorno de ansiedade, depressão e TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

“As sensações desagradáveis experimentadas pelo nomofóbico quando está sem o seu celular, comuns num ataque de pânico, muitas vezes não estão sozinhas, mas acompanhadas de um processo depressivo encoberto. Esses processos não são puros, há uma articulação entre os transtornos”, explica.

Numa sociedade que oferta um sem número de tecnologias e que exige que estejamos conectados permanentemente, como diferenciar um nomofóbico de um usuário habitual? Para D’Amato, o nomofóbico é aquele que não resiste ficar sem rede a conexão, ele precisa dar vazão ao seu impulso. Trata-se de uma neurose obsessiva. Falar ao telefone é uma forma de prazer que encobre a dor.


“O caráter obsessivo é atendido na atuação desmedida do sujeito que se submete a demandas incontroláveis. Vale lembrar que essas exigências inconscientes quando atendidas, logo se manifestam outra vez, levando o sujeito a reeditar comportamentos frente aos quais não consegue se insurgir ou mudar. É nessa perspectiva que podemos pensar, por exemplo, o vínculo do sujeito com atividades como se conectar, comprar, jogar ou comer”, analisa D’Amato.


O psicólogo lembra que a pessoa tem que ficar atenta sempre que passar a se desinteressar por atividades sociais, afetivas e de lazer que anteriormente ele gostava. Esse processo vai minando lentamente a pessoa, que passa a despender cada vez mais horas do seu dia a determinada situação.

“Um sintoma é o afastamento da pessoa de amigos e parentes com desligamento das coisas que antes sentia prazer, na medida em que a pessoa passa a se fixar em uma só atividade. Pessoas que sempre foram produtivas começam a se comportar diferente, dedicando-se menos ao trabalho, à família e às atividades costumeiras. De forma, que tudo no mundo apresenta-se como um sacrifício para ela”, explica D’Amato.

 -Medo
Quando ouvimos som estrondoso, levamos um susto. Mas essa sensação desaparece logo que percebemos que aquele som é inofensivo ou quando o barulho pára. Existem casos, porém, em que sentimos medo sem que o sinal de alerta esteja presente, esse medo é virtual.

Quando esse medo persiste durante um período maior, ele se transforma em ansiedade. Sempre que sentimos medo, reagimos com comportamentos e alterações fisiológicas que nos preparam para reagir a uma situação de ameaça. A pessoa se coloca em estado de alerta.

O esforço exigido provoca reações: a freqüência cardíaca acelera, ocorre vasoconstrição cutânea, aumentado o fluxo sanguíneo para os músculos (já que a pessoa está preparada para reagir fisicamente em relação ao perigo), a respiração acelera, as vias aéreas dilatam-se, ocorre a sudorese.

As situações de ansiedade são até certo ponto normais, mas quando começam a causar sofrimento no indivíduo, ela pode ser considerada patológica. No caso das fobias, o medo tem uma causa determinada, que pode, muitas vezes, ser considerada inofensiva para as pessoas livres de sintomas, como o medo de ficar sem o celular.

As reações fisiológicas, nesse caso, são intensas. Diversas pesquisas feitas por neurocientistas comprovam que há uma região do cérebro que funciona como “botão disparador” do medo, a amígdala.

-Estudo

Um estudo para avaliar a dependência do celular entrevistou 600 estudantes da Faculdade de Medicina de Indore, na Índia. Muitos deles usavam celulares com bastante freqüência, uma vez que a maioria deles moravam em albergues e queriam estar em contato constante com seus familiares e amigos. O mercado indiano surgiu como o segundo maior mercado depois da China para telefones celulares.

Foram identificadas as variáveis demográficas: idade, sexo, escolaridade e residência. O questionário sobre nomofobia tinha oito componentes: há quanto tempo o estudante possui o celular, ansiedade e estresse experimentado por causa das conexões perdidas, perda do celular e descarga da bateria, quantia gasta por mês em recarga, reação mostrada para o telefone tocando em horários impróprios, a freqüência com que eles mudam de telefone.

Cerca de 73% dos alunos responderam que eles mantinham seus celulares com eles, mesmo quando iam dormir, 18,5% dos estudantes utilizou o celular durante as horas de estudos, 20% dos alunos responderam que perdiam a concentração e ficavam estressados quando não tinham seus celulares por perto ou se o celular ficava sem bateria, 25% dos estudantes disseram que eles faziam a atualização de software móvel pelo menos uma vez por ano, 83% dos alunos responderam que o celular era uma ferramenta necessária para ajudá-los a manter conectados com seus familiares, 31% dos alunos tinham pelo menos uma chamada de longa duração todos os dias por mais de 30 minutos, dos quais 39% composta por mulheres e 24% por homens. Cerca de 56% dos estudantes mantiveram seus telefones móveis ou no bolso da camisa ou calça jeans perto de seu corpo para que eles pudessem ter uma sensação de constante contato com seu telefone celular.

Segundo o pesquisador Sanjay Dixit, do Departamento de Medicina da Faculdade de Medicina da MGM, Indore, os resultados encontrados na pesquisa foram extraídos a partir de um estudo com um pequeno grupo, mas podem refletir o cenário em todo o mundo, indicando que nomofobia tem todas as possibilidades de alcançar a escala de epidemia.

“Na realidade, estes resultados dão uma indicação preocupante de que, a cada dia que passa a juventude está ficando mais e mais dependente de celulares, que podem levar condições psiquiátricas graves e problemas psicológicos. Para evitar o estresse induzido por causa do mau funcionamento de telefones celulares, as pessoas que utilizam o aparelho levam um carregador o tempo todo, cartão de telefone pré-pago para fazer chamadas de emergência. E, no caso seu celular não estar funcionando, armazenam números de telefone importantes em outro lugar como backup no caso perderem seu telefone móvel”, explica.
Para a pesquisadora Josyane Lannes Florenzano de Souza, o transtorno ocorre devido ao fato de que em nossa sociedade o ser humano não vive mais num meio natural e sim num meio técnico, que interpõe entre o homem e a natureza uma rede de máquinas e técnicas apuradas. “Em decorrência da expansão dos recursos técnicos, a estrutura da sociedade tecnológica resulta muito mais complexa do que a da sociedade tradicional”, explica. Em consequência da ruptura entre as funções de produtor e consumidor, desempenhadas no passado pelos mesmos indivíduos, e da multiplicação artificial das necessidades de consumo, a organização social desdobrou os papéis sociais atribuídos a uma mesma pessoa. “Um indivíduo é ao mesmo tempo pai de família, empregado de uma fábrica e membro de um clube, de um partido político, de um sindicato, de uma igreja, etc. Por isso, os conflito entre os papéis são muito maiores do que na sociedade tradicional. Essa complexa estrutura da sociedade acaba também demandando uma grande necessidade de comunicação entre os indivíduos. Porém, quando as pessoas se tornam dependentes dessa comunicação ativa, podem se tornar nomofóbicas”, acrescenta.
Os critérios que orientam a identificação do uso excessivo de celular são:

·         Manter o celular sempre à mão, 24 horas por dia mesmo quando dormindo, para não perder qualquer possibilidade de contato;
·         Abandonar as atividades para atender qualquer chamada do celular (muitas vezes interferindo em situações de trabalho, estudo, reuniões sociais e familiares);
·         Manter invariavelmente a bateria do celular carregada;
·         Quando esquecer o celular em algum lugar, voltar para buscá-lo pois do contrário este fato pode gerar extrema ansiedade (como se faltasse algo essencial).

Publicado na revista Psique