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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Loucos por sexo



 Por Roberta de Medeiros

Eles pensam em sexo o tempo todo. Têm relações com vários parceiros ou estão sempre lendo revistas pornográficas. Podem se masturbar com muita freqüência ou possuir fantasias sexuais nada comuns. Esses indivíduos são viciados em sexo, patologia semelhante à dependência por jogo ou drogas, mas ainda pouco estudada pela psiquiatria moderna.

O transtorno pode ser mais sério do que se imagina. Assim como nos EUA, especialistas acreditam que no Brasil os compulsivos sexuais sejam até 6% da população, o equivalente a cerca de 10 milhões de pessoas em um universo de 170 milhões. Para se ter uma idéia, esse total corresponde a toda população do Estado do Rio Grande do Sul.

Apesar da gravidade, não é tão fácil reconhecer um viciado em sexo. Esse tipo de compulsão passa despercebido por familiares, amigos e colegas, já
que não é a quantidade de relações sexuais que necessariamente irá definir a dependência, mas o estrago que o vício pode causar na vida da pessoa e o nível de controle que ela tem sobre seus impulsos.

Uma pesquisa feita pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) traçou um perfil do compulsivo sexual no Brasil. A pesquisa revelou que a idade média dos pacientes é de 34 anos. A escolaridade do grupo é muito alta: 37% têm terceiro grau completo, 30% têm segundo grau completo e 15% têm terceiro grau incompleto.

Em 54% dos pacientes analisados pela pesquisa foram apontados sintomas de transtornos psiquiátricos, como depressão ou ansiedade. Cerca de 58% apresentaram sintomas de parafilias como: exibicionismo (20%), voyeurismo (16%), masoquismo (8%) e pedofilia (4%).

Outros dados mostram que 41% dos pacientes analisados têm um parceiro fixo e que a média de parceiros sexuais de cada paciente chega ao patamar olímpico de 161 pessoas. Os prejuízos são de grandes dimensões. Os pacientes apontaram como principal área de prejuízo a profissional (60%), a pessoal (45%) e a familiar (16%).

O estudo ainda apontou que, em média, cada paciente tem um parceiro por semana (que pode ser o mesmo), pensa em sexo cinco vezes por dia, tem 2,4 relações sexuais por semana, masturba-se 9,3 vezes por semana e tem uma média de 11,7 orgasmos por semana.
A variação dos dados é grande. Da mesma forma que há pessoas que ficam felizes fazendo sexo uma vez por mês, outras querem fazê-lo dez ou mais vezes por dia. No dia da aplicação do questionário, eles estavam, em média, de 4 dias sem sexo e 2,3 dias sem se masturbar.

Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Aderbal Vieira Jr, responsável pelo ambulatório de tratamento do sexo patológico da Unifesp, os homens procuram mais ajuda do que as mulheres. Cerca de 90% dos pacientes são homens. “Não sabemos se as mulheres não procuram ajuda por questões morais”, observa.


Reposta química

Algumas correntes da psiquiatria acreditam que a resposta para dependência estaria na produção de uma substância natural chamada dopamina, que rege a sensação de prazer. Pessoas com menor produção da droga, estariam mais predispostas ao vício por tentar compensar a falta da substância a partir de estímulos externos.

Há ainda quem acredite que a compulsão seja apenas uma disfunção de comportamento. De qualquer forma, a orientação dos especialistas é que a pessoa busque o tratamento se não estiver satisfeita com o próprio comportamento sexual, mesmo que não apresente vício por sexo. O tratamento é medicamentoso e associado à psicoterapia.


AA

Graças a seu sucesso na recuperação de muitos alcoólatras, o AA passou a servir como modelo para o combate a outros tipos de dependência, inclusive ao sexo. A terapia dos grupos anônimos consiste em doze passos que o dependente deve seguir em busca da recuperação.

Nas reuniões dos Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, cada participante fala por até sete minutos e ouve o relato de quem conseguiu superar a compulsão. Sobre uma mesa, uma placa adverte: Quem você vê aqui, o que você ouve aqui, deixe que fique aqui.


Serviço:

PROAD (Programa de Orientação e Atendimento a dependentes): consulta e orientação pelo telefone (11) 5579 1543.

 Publicado na revista Fato

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O que o cheiro tem a ver com o comportamento sexual?



Por Roberta de Medeiros

Sempre tem um cheirinho que faz a gente se lembrar de uma pessoa querida. Já percebeu? É normal, considerando que as emoções estão intimamente ligadas ao olfato. Estudos recentes vão mais longe, até defendem que existe um certo odor exalado pelo organismo que nos torna sexualmente atraídos pelo sexo oposto. E sequer pensamos direito na hora "h", porque a reação é automática. 

O artifício não é privilégio dos humanos - está presente em vertebrados em geral, e funciona como isca para fisgar possíveis parceiros sexuais. Quem diria, tudo indica que romance começa pelo faro! Se preferir, pense que temos um "sexto sentido". Isto, graças aos feromônios, sinais químicos produzidos pelo corpo e que podem ser detectados por um pequeníssimo órgão que fica no nariz e é responsável pela recepção desses sinais, trata-se do órgão vômero-nasal. 

Ele é uma estrutura importante no processamento de informações olfativas que não se tornam conscientes e que desencadeiam impulsos que levam ao sexo (sistema acessório). Lembre-se que um cão, por exemplo, tem o hábito de marcar seu próprio território! Paralelamente, há o epitélio olfatório. Ele que permite que sinais químicos sejam percebidos como um cheiro - e de modo consciente (sistema principal). 

Alguns estudos atestam que homens não têm o órgão vômero-nasal. Na melhor das hipóteses, as pesquisas mostram que a ele simplesmente não funciona. Isto é, por causa da evolução biológica, o órgão se tornou inativo em certos primatas. Se isso é mesmo verdade, por que ainda somos sensíveis ao feromônio? Tudo leva a crer que informação feromonal tomou uma outra rota para atuar no sistema nervoso. 

Em entrevista à Revista Fato, o neuroanatomista Judney Cley Cavalcante, doutorando em Ciências Morfofuncionais, pelo Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, explicou como, afinal, o feromônio interfere na libido. Desde 2001, o pesquisador se dedica ao estudo das respostas neuroquímicas produzidas no cérebro de ratos em reação ao feromônio. O resultado das suas experiências será publicado pela "Physiology & Behavior", revista oficial da International Behavioral Neuroscience Society. 

Revista Fato- Por que os seres humanos ainda são sensíveis ao feromônio? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- O fato dos seres humanos não terem o órgão vômero-nasal funcional e mesmo assim apresentarem alterações fisiológicas e comportamentais diante de feromônio sugere uma transferência de função do órgão vômero-nasal para o epitélio olfatório, ou seja, provavelmente o epitélio olfatório, além de transmitir informações relacionadas ao sentido do cheiro, ele também deve ser responsável pela transmissão da informação feromonal para a parte central do sistema nervoso, só não se sabe ainda de que forma, nem quais vias são utilizadas. 

REVISTA FATO- No caso dos homossexuais, como o feromônio é percebido? Dá para entender a preferência sexual por esse prisma? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Um estudo mostrou a irrigação [o fluxo sanguíneo] do cérebro de heterossexuais e homossexuais em resposta ao feromônio. A substância foi colocada debaixo do nariz deles, enquanto os exames de neuroimagem registravam quais as áreas do cérebro estavam mais ativas. Os heterossexuais que tiveram contato com o feromônio do sexo oposto apresentaram maior atividade nas áreas do cérebro ligadas ao prazer e ao bem-estar [a amígdala e o hipotálamo]. Quando eles foram expostos ao feromônio do mesmo sexo, o sinal químico foi interpretado como um cheiro. Mas a reação dos homossexuais foi oposta, eles tiveram uma resposta mais ligada ao prazer ao cheirar o feromônio do mesmo sexo. 

REVISTA FATO- Então a preferência sexual tinha a ver com uma resposta ao feromônio...Você concorda como essa maneira de entender o homossexualismo? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Eu acredito que o desenvolvimento da identidade sexual tem uma base neuronal muito forte sim, e até com uma modificação importante no sistema endócrino. Muita gente fica chateada porque acha que a ciência quer encontrar algo que justifique a atração entre pessoas do mesmo sexo, mas eu acho bem interessantes os estudos que tentam encontrar uma base biológica para a homossexualidade, não é uma questão de preconceito. 

REVISTA FATO- Além de despertar o impulso sexual, quais outros comportamentos produzidos pela exposição ao feromônio? O que há de novo neste sentido? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Algumas pesquisas investigam o papel do feromônio no comportamento agressivo e defensivo dos animais, mas ainda há pouca coisa sobre isso. Tudo o que se tem é em relação ao comportamento sexual e maternal. Os estudos mostram, por exemplo, que a percepção do feromônio ajuda a fêmea a reconhecer os filhotes. Quando o órgão vômero-nasal é lesado, a mãe aceita qualquer filhote, quando o normal seria rejeitar aquele filhote que não é seu. Isso foi testado em ratos e ovelhas. Neste caso, o papel do órgão vômero-nasal é o de inibir o comportamento maternal. Sabemos que em comparação a outros animais os seres humanos têm uma olfação bastante ruim, mas as mulheres também são capazes de identificar os filhos pelo cheiro. 

REVISTA FATO- Extratos de feromônio podem ajudar no tratamento de disfunções sexuais ou ser usado como afrodisíaco natural? Isso dá certo? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Já existem substâncias produzidas em laboratório. Em relação àqueles perfumes com feromônio, eu não sei se é enganação ou não, porque tudo o que tem sido descoberto nessa área é muito recente. O fato de ser publicado um artigo em uma revista científica, mesmo que seja uma revista séria, isso não significa que tudo seja verdade, que aquilo é inquestionável. É complicado. Antes de uma substância chegar ao mercado, ela tem de passar por uma série de procedimentos de controle. Eu acho que futuramente a substância pode ser fabricada em escala industrial, mas antes disso é preciso que haja um embasamento científico. 

REVISTA FATO- A produção do feromônio pode variar. E a sensibilidade? Ela também muda de um indivíduo para o outro? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Tão importante quanto a produção do feromônio é a sensibilidade que se tem a ele. Há uma série de circunstâncias que interferem na interpretação dos sinais químicos. As mulheres, por exemplo, elas respondem de maneiras diferentes ao odor masculino, dependendo da fase do ciclo menstrual. No período fértil, a maioria pode achar o odor agradável, em outro momento do ciclo o mesmo cheiro pode ser considerado desagradável. A sensibilidade varia de pessoa para pessoa, depende da intensidade do cheiro, etc. 

REVISTA FATO- Isso quer dizer que outros elementos podem influenciar a maneira com que a mulher vai perceber o odor? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- Um trabalho mostrou que as mulheres expostas ao feromônio, elas tendiam a achar mais atraentes os rostos dos homens com traços bem masculinizados, com maxilar mais evidente, queixo grande, etc. Ou seja, existe uma série de questões envolvidas, como os próprios elementos da atratividade visual. É complicado saber o peso de cada um deles. E nem dá para controlar tantas variáveis em experiências com seres humanos. Como selecionar voluntários mais ou menos atraentes, por exemplo? É difícil chegar a uma resposta, porque isso é subjetivo e envolve uma questão cultural. Há uma série de dificuldades em se fazer experiências com humanos... 

REVISTA FATO- Um cheiro qualquer pode trazer à tona lembranças e sensações... No caso, o mecanismo responsável é diferente? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- O feromônio tem um papel chave em relação ao humor, ao sistema endócrino e também é sensível aos estados inconscientes. No caso das lembranças que afloram com o cheiro, é uma outra estrutura do cérebro, o núcleo acumbens, que recebe as informações do sentido do olfato; esta parte do cérebro está ligada ao reforço, à memória e ao sistema de recompensa. Então, se uma experiência agradável foi relacionada a um odor, ele vai estar extremamente ligado àquela memória. E se uma pessoa é novamente colocada em contato com o cheiro, as reações se repetem de forma muito parecida com a circunstância que a originou. Isso também acontece com animais, e pode ser repetido em laboratório. 

REVISTA FATO- O seu estudo em laboratório diz respeito ao comportamento sexual, especificamente? 

JUDNEY C. CAVALCANTE- O que fazemos é estudar o que acontece com os neurônios de ratos a partir das reações com os feromônios e saber quais são as conexões mais usadas nestas reações. O estudo se concentra em uma área muito específica do hipotálamo, o núcleo pré-mamilar ventral. Ele também é importante na modulação do comportamento agressivo, mas não se sabe de que maneira isso acontece, se aumenta ou não a agressividade. Essa região do cérebro dos ratos têm receptores de leptina, um hormônio que tem o papel de regular a reserva energética [a quantidade de energia disponível para o desempenho das funções normais do organismo]. Os estudos mostraram que a leptina, além de promover alterações do comportamento alimentar, também está ligada às funções sexuais e à fertilidade, e provavelmente o núcleo pré-mamilar ventral seja uma região chave para a relação leptina-comportamento sexual. 

Entrevista  publicada na revista Fato

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ouvindo vozes


Você já teve a nítida impressão de ouvir uma voz sem que houvesse qualquer pessoa à sua volta? Em uma pesquisa feita pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, um grande número de entrevistados respondeu afirmativamente. Uma em cada 25 pessoas ouve vozes com uma certa freqüência.

A história está repleta de nomes famosos que ouviam vozes: Jesus, Sócrates, Galileu, Joana D´Arc, Pitágoras, William Blake, Carl Jung e Ghandi.

A experiência de ouvir vozes ou de ver “coisas” ocorreriam quando atribuímos equivocadamente pensamentos e imagens que são gerados por nossa própria mente a uma fonte externa. E, dependendo da freqüência e capacidade que a pessoa tem de lidar com a situação, essa vivência pode ser tomada como indício de instabilidade mental.  

Entretanto, o estudo sugere que ouvir vozes ou ser repentinamente assaltado por pensamentos que parecem não ter vindo de nossa “cabeça” é algo mais comum do que se poderia supor. "Muitas pessoas ouvem vozes, mas nunca sentiram a necessidade de pedir ajuda aos serviços de saúde mental", diz a pesquisadora Aylish Campbell, responsável pela pesquisa.

No século 19, foi feito o primeiro estudo que investiga a presença de alucinações em pessoas normais. 1684 pessoas de um grupo de 15 mil entrevistados relataram ter a vívida impressão de ver ou ser tocada por um ser vivo ou objeto inanimado, ou de ouvir uma voz, sem que essa sensação pudesse ser atribuída a alguma causa física externa.

Outros estudos chegaram a resultados parecidos. Em uma sondagem realizada na década de 80 pelos psicólogos americanos Mary Losch e T.B. Posey, que entrevistaram 375 estudantes. O resultado é que 39% deles disseram ouvir vozes. 

Para Campbell, o fato de ouvir vozes não é necessariamente um problema. “O que parece ser mais importante é como as pessoas interpretam estas vozes", diz. Ela observa que enquanto algumas pessoas se vêem perturbadas por vozes hostis, que criticam e perseguem, outras podem considerar a experiência como algo positivo.

Pessoas que sofreram algum trauma estariam mais predispostas a ouvir vozes. "Nosso trabalho de pesquisa mostrou que mais de 70% das pessoas que ouvem vozes podem ter tido um evento traumático que desencadeou as vozes", salienta o psiquiatra holandês Marius Romme, presidente de uma entidade britânica que ajuda pessoas que ouvem vozes.

Ao lado de Sandra Escher, jornalista de ciência, Romme levou a cabo um estudo desafiador que tratou de mostrar como são vistos os povos que ouvem vozes. Ao estudar comunidades que viam esse tipo de experiência como positiva, eles desenvolveram técnicas específicas para auxiliar pessoas que não sabem lidar com o problema.

Romme e Escher chegaram a publicar um guia voltado para especialistas que ensina a conviver e negociar como as vozes. Segundo a dupla, elas costumam ter uma mensagem metafórica. Analisando o que elas têm a dizer, profissionais da saúde mental podem ajudar seus pacientes a digerir melhor dolorosos traumas do passado.

O problema costuma surgir logo na infância. Um outro estudo feito por Romme mostrou que 21% das crianças ouviram vozes depois ter passado por abuso físico ou sexual; 37% após problemas na família, como o divórcio; e 25% por causa de mudança de escola e “bullying”.

“As vozes atrapalhavam as atividades escolares, oferecendo respostas erradas durante as provas,” diz Escher. “Algumas teciam comentários sobre amigos, enquanto outras faziam tanto barulho que impediam que as crianças se concentrassem”, conta. As vozes também diziam que os familiares seriam prejudicados se elas não as obedecessem.

Fonte: BBC Brasil 

sábado, 30 de abril de 2011

Codependencia: a escravidão mútua

Por Roberta de Medeiros

É comum que o familiar de um alcoólatra ou de doente, por exemplo, dedique-se integralmente a essa pessoa, a ponto de se sentir totalmente responsável por ela. Essa atenção exagerada costuma ser bem vista por todos, já que a tomamos como atitude zelosa para com o outro, uma demonstração de afeto. No entanto, essa rotina de cuidados pode mascarar uma perigosa relação de codependência em que as pessoas envolvidas se deixam escravizar mutuamente.

Isso faz com que elas se distanciem da sua verdadeira identidade, tomando de empréstimo as expectativas, desejos e necessidades da outra pessoa. De alguma maneira, essa relação de dependência funciona como uma estratégia de defesa a qual costumamos recorrer para sobreviver em tempos de crise, é uma forma de crescer em ambientes dolorosos.  Sentimos como se a vida só fosse possível quando nos agarramos fortemente a alguém, quando vivemos em função desse outro.

Desde cedo, as crianças percebem que os sentimentos positivos que lhes é dirigido dependem muito do estado de humor dos pais e, assim, crescem inseguras. Assim, elas aprendem a se basear nos desejos alheios ao invés de investir em suas expectativas. E não raro a dependência mútua é passada de geração em geração. O filho de um pai alcoólatra, por exemplo, poderá manter a mesma relação de dependência, seja por álcool, compras ou trabalho quando adulto.   

Diante do sentimento de inadequação, essas pessoas então buscam a perfeição em cada gesto, cobrando demais de si mesmas, talvez por acreditar o que isso lhes trará aceitação.  Outras se julgam obrigadas a desempenhar o papel de salvadoras, sua auto-estima passa a depender da sua capacidade de ajudar as outras, especialmente as que se as pessoas que se colocam no papel de vítimas; isto por não se julgarem boas o bastante para que sejam aceitas de outro modo. Existem também os revanchistas que tentam compensar as humilhações a partir de grande feitos, ansiosos para reafirmar sua importância. 

Todos os casos mencionados são formas variadas de manifestação de um mesmo problema, a dependência excessiva da aceitação do outro, a necessidade de aprovação. Segundo Roberto Ziemer, mestre em psicologia social pela PUC-SP e autor do livro Do Medo à Confiança: como realizar seu projeto de vida (Editora Gente), o primeiro passo é desvencilhar do que ele chama de eu falso, aquele que tomamos de empréstimo a partir de relações destrutivas. Através da identificação, questionamento e transformação dos papéis falsos descobrimos que existe uma maneira mais espontânea e saudável de estar no mundo, ele diz.

Outro passo é resgatar nossos próprios sentimentos e nos conscientizarmos das nossas próprias necessidades. Identificar os limites entre a própria identidade e a da outra pessoa também pode ajudar. Ao nos libertarmos das crenças e regras destrutivas do passado, poderemos estabelecer nossas próprias regras. À proporção em que nos libertarmos da opressão auto-imposta seremos capazes de fazer contanto com a nossa criança interior, aquela representa os aspectos mais genuínos, espontâneos e criativos de nossa personalidade.

Enfim, “nosso bem-estar comum deve estar sempre em primeiro lugar”, como reza a tradição do Codependentes Anônimos, um programa de recuperação voltado para pessoas que sofrem de dependência afetiva. Além de ensinar seus associados a se ver livre dessa relação de escravidão, o site do grupo oferece algumas perguntas que ajudam a identificar se a pessoa mantém ou não comportamento típicos de codependência:

Você se sente responsável por outra pessoa?
Sente culpa quando outras pessoas têm problemas?
Costuma dizer "sim" quando quer dizer "não"?
Procura agradar aos outros ao invés de agradar a si mesmo?
Vive tentando provar aos outros que é bom o suficiente?
Buscar desesperadamente amor e aprovação?
Tolera abuso para não perder o amor de outras pessoas?
Sente-se aprisionado em um relacionamento?
Teme expressar suas emoções de maneira aberta?
Ignora os seus problemas ou finge que as circunstâncias não são ruins?
Costuma ajudar as pessoas a viverem?
Acredita que elas não sabem viver sem você?
Tenta controlar eventos, situações e pessoas através da culpa?
Procura manter-se ocupado para não entrar em contato com a realidade?
Sente que precisa fazer alguma coisa para sentir-se aceito e amado pelos outros?
Tem dificuldade de identificar o que sente?

Codependentes Anônimos: http://www.codabrasil.org.br

terça-feira, 26 de abril de 2011

Música também cura



Por Roberta de Medeiros

 
Os sons podem acalmar ou gerar pânico. Podem causar sonolência ou despertar paixões. Ou ainda nos deixar tensos ou enlevados. Enfim, são capazes de detonar uma cascata de reações que alteram o estado geral do organismo. É o caso do som perturbador de uma sirene, que nos põe em alerta, e faz com que o corpo libere adrenalina para se proteger de uma possível ameaça. 

A terapia através da música – a musicoterapia – se baseia justamente nesse princípio: os sons produzem efeitos biológicos que podem tratar doenças, sejam elas físicas ou mentais. O uso de instrumentos, cantos e ruídos são recursos que têm sido usados com deficientes físicos, estudantes com dificuldade de aprendizagem, fala ou audição e usuários de drogas.

Não é crendice. A ciência mapeou o caminho que o som faz em nosso organismo: primeiro os sons alcançam os ouvidos e a seguir são convertidos em impulsos. Então, eles viajam pelos nervos auditivos até o tálamo, parte do cérebro que funciona como uma estação central das emoções. Ao serem processados pelo cérebro, os impulsos reverberam por todo o corpo. 

O resultado: uma série de respostas orgânicas. É como se nosso corpo adotasse uma cadência diferente. Claro, essa súbita mudança acaba por alterar padrões internos (sono e vigília, respiração, batimentos cardíacos, circulação sanguínea e secreções das glândulas). O que a terapia faz, portanto, é ensinar o corpo a “orquestrar” melhor a sinfonia interna que cada um de nós carrega. 


-Afinando o instrumento
“Viver é afinar um instrumento, de dentro para fora, de fora para dentro”. O trecho da música nos faz pensar que nossas emoções também soam a partir de pulsações rítmicas. Cada pessoa tem sua melodia, sua harmonia. Quando uma emoção rouba a cena, porém, dá-se o desarranjo. No caso, a terapia funciona como aqueles aparelhinhos que os musicistas trazem consigo para afinar o instrumento sempre que necessário.

“Há momentos em que as palavras não podem ser ditas ou nem se consegue mais dizê-las, então as canções falam a respeito dos sentimentos e vivências para eles mesmos (pacientes). Isso ajuda a processar perdas e aflições reprimidas”, diz a musicoterapeuta Sofia Cristina Dreher, que há cinco anos trabalha no atendimento de pacientes com câncer.

Em sua tese de mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC do Paraná, a pesquisadora e terapeuta defende que as canções são instrumento eficaz para trazer à tona sentimentos e impressões que evitamos trazer à consciência, que ficam bloqueados, mas que interferem decisivamente em nosso estado de espírito – são os sentimentos reprimidos. 

A partir de uma experiência tocante, ela narra o caso de uma paciente com câncer de pulmão internada no hospital São Lucas. “A paciente disse que não estava encontrando lugar para chorar em sua casa, que apenas o conseguia fazer, à noite, em seu quarto”, conta. A terapeuta, então, cochichou com ela, que fariam daquele lugar e daquele momento, um local para chorar, porque o choro faz bem.

Atualmente, a especialista trabalha no Oncocentro e atende cerca de 50 pacientes por mês. A duração da terapia varia, muitos morrem, alguns recebem tratamento por cerca de seis meses e outros lutam ao longo de anos. “Em geral, a primeira necessidade do paciente é falar, cantar algo que os leve daquele lugar, daquela situação”, conta ao lembrar sua experiência com pacientes durante as sessões de quimioterapia.

Ela observa, porém, que os profissionais de saúde têm dificuldade em oferecer respaldo à dor emocional dos pacientes. “Esses profissionais não são preparados para lidar com a dor emocional, e sim, com a dor física. Por vezes, os pacientes sentem uma angústia muito grande por não serem compreendidos na sua dor, uma vez que ela não se divide em dor física e emocional”, diz.


Publicado na revista Fato 


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Falando da vida alheia: o que está por trás da fofoca



Por Roberta de Medeiros

Basta um colega iniciar sua narrativa de intrigas sobre namoro, trabalho e problemas alheios que logo atrai a atenção de uma platéia sempre interessada.  "A fofoca nasce, brota, cresce e voa contra tudo o que nasce, brota, cresce e voa", escreve o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa em seu livro “Tratado Geral sobre a Fofoca”. Nele, descreve como somos vítimas e ao mesmo tempo agentes da fofoca.

Segundo Gaiarsa, a fofoca um dos fatores que mais influencia e modela as instituições sociais. Seria uma forma de as pessoas buscarem posição social perante as outras, ou seja, está diretamente ligada à insatisfação com a própria vida. “É a forma mais eficaz de as pessoas se vigiarem para manter o status da perseguição de todos contra todos", diz o psiquiatra.

A fofoca é pré-histórica. Há quem afirme que ela tenha sido de grande utilidade para nossos ancestrais ao longo da evolução: quem comia os alimentos corretos, escolhia para parceiro sexual os melhores reprodutores e estavam informados sobre o que acontecia ao seu redor, levavam vantagem sobre aqueles que não davam importância a essas  informações.

O interesse pela vida alheia recai sobre os famosos. Uma pesquisa feita pela Ipsos-Marplan, empresa especializada em estudos de marketing e consumo, mostra que pelo menos 38% da população no Brasil tem interesse por gente famosa. Segundo a pesquisa, 12% têm o hábito de ler revistas de fofocas. São mulheres (74%) das classes AB (54%) e pessoas de 20 a 34 anos (39%) que mais buscam esse tipo de entretenimento.

-Terapia
Na Itália, um manual da fofoca escrito pelas psicólogas Elena Mora e Luisa Ciuni deixa claro que se ocupar com a vida alheia pode ser uma excelente terapia. "A fofoca é um antídoto contra a monotonia e a solidão", afirmam as autoras. "É um importante instrumento de integração social. Consolida a participação num determinado grupo, alivia as tensões, o estresse acumulado e permite descarregar a agressividade. É um jogo entre realidade e ficção, que ajuda a conhecer a si mesmo”, dizem. 

O manual traz um estudo feito na Itália segundo o qual as mulheres gastam em média cinco horas por dia fofocando. No livro, as autoras dão dicas sobre como fofocar melhor e apontam os melhores lugares para rir da vida alheia. O salão do cabeleireiro, a academia de ginástica, festas de aniversários, casamentos e corredores de hospitais são alguns dos ambientes onde as mulheres podem fofocar.

A fofoca é uma forma de agressão coletiva, só que disfarçada. Quando uma pessoa comenta maliciosamente a vida de alguém tende a excluir e reprovar um certo grupo. “E nisso as pessoas que na frente fazem salamaleque, por traz todo mundo sabe, cortam a “casaca”, o que tem conseqüências até econômicas para quem foi fofocado. Isso é outra derivação da agressão, a gente faz de conta que é bonzinho e machuca quanto pode por baixo, indiretamente”, diz Gaiarsa.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

A ciência explica como surgem grandes assassinos


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Por Roberta de Medeiros


A sociedade prepara o crime, o criminoso o comete. Até pouco tempo essa era basicamente essa a explicação para a conduta de grandes impostores e assassinos. Ou seja, o crime era visto como uma resposta de um certo grupo frente a um ambiente hostil, de violência, individualismo e competição. "É preciso matar para não morrer", era o pensamento atribuído ao criminoso.

Hoje, porém, a ciência tenta investigar a predisposição biológica para a criminalidade. Parece ser esse o caminho explorado por uma emergente teoria, a da genética da violência, defendida pelo professor Ricardo Flores, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em seu discurso feito no 51º Congresso Brasileiro de Genética, em Águas de Lindóia (SP).

Durante o congresso, ele afirmou que todos grandes assassinos teriam problemas no funcionamento do cérebro. Um ambiente de violência e perigo, por exemplo, faria com que uma das formas alternativas do gene ligado ao comportamento seja inibida. Isso seria o bastante para abalar o frágil equilíbrio entre as substâncias ligadas às emoções - os neurotransmissores.

Como se fossem mensageiras, essas substâncias levam informações de uma célula a outra no sistema nervoso. Graças à transmissão dessas informações pelas células nervosas até o cérebro, somos capazes de perceber estímulos, como um grito ou uma doce melodia, e interpretá-los como um sinal de perigo ou bem-estar, dor ou alegria, tensão ou relaxamento.

Uma das substâncias mais importantes é a serotonina, responsável pelo humor. O problema é que crianças que sofrem violência passam a produzir a substância numa escala bem maior. E as grandes descargas afetam a formação do cérebro, que é programado para que ela se torne fria e impiedosa em relação às pessoas.

Porém, crescer em um ambiente hostil, pura e simplesmente, não torna uma pessoa criminosa. O risco estaria na soma dos dois fatores, o ambiental e a predisposição genética. Quando somente um dos fatores aparece, porém, o comportamento transgressor dificilmente é registrado. Mas do contrário, a mistura seria decisiva.

Psicopatas

O comportamento criminoso estaria associado que os especialistas chamam de psicopatia (ou sociopatia). Em geral, o perfil de um psicopata é uma pessoa que sai à caça de novidades e que tem gosto pelo perigo. Não sente necessidade de fugir de situações de ameaça e tem pouca dependência da aprovação dos outros em relação à sua conduta. Ou seja, sua vontade é sua lei.

São pessoas manipuladoras, que têm dificuldade de sentir afeto e compaixão. São, portanto, incapazes de manter uma relação e de amar. Elas mentem, roubam, abusam, trapaceiam, negligenciam suas famílias e parentes, colocam em risco suas vidas e a de outras pessoas. Enfim, elas pensam que o outro não passa de um obstáculo a ser removido.

Estudos recentes mostram que esse tipo de comportamento estaria ligado à atividade diferenciada dos três principais neurotransmissores que atuam no cérebro - a dopamina, a serotonina e a noradrenalina. O balanceamento, para mais ou para menos, determinaria a personalidade de uma pessoa.

A psicologia moderna trabalha com três principais grupos de personalidades: o que busca novidades (extrovertidos), o que foge de ameaças (introvertidos) e o que tende ora para um lado e ora para o outro, de acordo com a recompensa obtida por sua conduta (considerado o mais comum).

O psicopata seria um extrovertido por natureza. O que corresponderia à alta atividade de dopamina (que leva à busca de novidade), baixa atividade de serotonina (relacionada à inibição e à fuga do perigo) e de noradrenalina (ligada à dependência de recompensa).
Publicado na revista Fato